Em meio às ruínas do noroeste da Tunísia, uma escada muda completamente a leitura de uma antiga casa romana. Em Bulla Regia, residências de famílias de posição elevada escondem sob o nível da rua ambientes completos, com pátios, dormitórios, salas de jantar e mosaicos que atravessaram séculos até hoje.
Bulla Regia cresceu entre a tradição númida e o domínio romano
Bulla Regia já era uma cidade antes de sua integração plena ao mundo romano. O Instituto Nacional do Patrimônio da Tunísia registra muralhas, necrópole, moedas e vestígios ligados ao período númida e neopúnico. O sítio também conservou dolmens, alguns reutilizados durante o período romano, reforçando a continuidade de ocupação.
No início do século II, sob Adriano, a cidade recebeu o estatuto de colônia romana. Esse período trouxe forte desenvolvimento arquitetônico, enquanto famílias locais alcançaram posições elevadas na sociedade e na administração de Roma. A transformação não apagou a fase anterior, mas adicionou monumentos e novas formas de representação urbana.
🏛️ Séculos II e I a.C.: Bulla Regia integra o território cartaginês e abriga uma residência real númida.
🌿 Início do século II: A cidade se torna colônia sob Adriano e amplia sua arquitetura monumental.
🚀 Séculos XX e XXI: Escavações, restaurações e pesquisas preservam casas subterrâneas e mosaicos do sítio.
Como funcionava um andar subterrâneo em Bulla Regia?
Bulla Regia mostra detalhes da arquitetura romana no norte da África // Créditos: depositphotos.com / mehdi33300
O piso subterrâneo repetia funções essenciais de uma residência, em vez de servir apenas como depósito. Na Casa da Caça, uma escada de 22 degraus leva a um peristilo, com cinco ambientes distribuídos ao redor. A descida desemboca nesse pátio interno, mostrando que o nível inferior fazia parte do planejamento da moradia.
O conjunto inclui um triclínio, usado como sala de jantar, além de dois quartos posicionados nas laterais. As salas eram cobertas por abóbadas feitas com tubos de terracota encaixados, técnica registrada em outras cidades romanas da Tunísia. A Casa do Tesouro reforça o padrão, com 17 degraus até três salas, dois quartos e um triclínio central.
Mosaicos transformaram cada casa em uma identidade própria
Os mosaicos não eram simples detalhes decorativos, pois hoje ajudam a distinguir diferentes residências do sítio. A Casa de Vênus recebeu esse nome por um pavimento que representa o triunfo da deusa, conservado no local. Na Casa da Caça, uma cena ligada à caça também ajudou a batizar a residência.
Na Casa da Pesca, o triclínio continha um mosaico com pequenos personagens pescadores. A Casa da Nova Caça, descoberta nos anos 1970, ganhou seu nome por outra cena de caça encontrada durante as escavações. Esse costume moderno de nomeação transforma a decoração preservada em uma espécie de endereço arqueológico para cada conjunto doméstico.
O que torna as casas de Bulla Regia tão incomuns?
O diferencial está na repetição do modelo subterrâneo em várias residências importantes, não em um único caso excepcional. A Villa dos Mosaicos, por exemplo, possui três salas abaixo do solo, acessíveis por uma escada de 18 degraus. A repetição aparece também na Casa da Pesca e na Casa da Nova Caça, ambas com níveis inferiores documentados oficialmente.
A Casa de Vênus exige 23 degraus para alcançar dois cômodos e um triclínio. A Agência de Valorização do Patrimônio e Promoção Cultural destaca essas moradias subterrâneas como a característica mais célebre de Bulla Regia. A fama atual do sítio nasce justamente dessa combinação entre arquitetura doméstica, decoração e conservação abaixo do solo.
Residência
Acesso ao nível subterrâneo
Casa da Caça
22 degraus até um peristilo com triclínio e quartos.
Casa de Vênus
23 degraus até dois cômodos e um triclínio.
Villa dos Mosaicos
18 degraus até um corredor, triclínio e dois quartos.
Uma cidade inteira ajuda a entender essas casas
As moradias subterrâneas faziam parte de uma cidade com fórum, templos, mercado, teatro, anfiteatro, termas e sistemas de água. O sítio arqueológico ocupa mais de 60 hectares, segundo o Instituto Nacional do Patrimônio da Tunísia. Essa escala ajuda a colocar as residências dentro de uma paisagem urbana muito mais ampla.
As cisternas conhecidas podiam armazenar até 1.200 m³ de água, provavelmente destinada às termas meridionais. O teatro, construído no século II, comportava entre 2.500 e 3.000 espectadores, conforme a mesma fonte oficial. Assim, os pisos subterrâneos conviviam com grandes obras públicas e uma vida urbana marcada por infraestrutura, lazer e espaços cívicos.
Vale olhar além das ruínas aparentes
Bulla Regia surpreende porque parte de sua arquitetura doméstica permanece onde poucos esperariam encontrá-la, abaixo do nível atual do terreno. Escadas, quartos, salas de jantar e mosaicos preservam uma dimensão íntima da vida de famílias que ocuparam a cidade há muitos séculos. Se você gosta de arqueologia, eu colocaria esse sítio entre aqueles que merecem ser observados devagar, cômodo por cômodo. A experiência ganha força justamente quando a cidade visível termina e os ambientes subterrâneos começam a revelar outra lógica doméstica romana.
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