Trajetória política, peso eleitoral da capital e capacidade de transitar fora da polarização nacional ajudam a explicar a força dele

27 set 2026 - 04h58

(atualizado às 07h07)

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- Por: Isabella Lima

Resumo

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Cientista política analisa força de Paes no RJ após perder vantagem para vencer no 1º turno:

A força eleitoral do ex-prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes (PSD) não depende diretamente da disputa presidencial e está ligada, principalmente, à trajetória política construída por ele, ao peso eleitoral da capital e ao alto grau de conhecimento de seu nome entre os eleitores, segundo a cientista política Mayra Goulart, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Apesar disso, o cenário da corrida pelo governo do Estado mudou desde o início das pesquisas, quando Paes aparecia com vantagem suficiente para alimentar a perspectiva de uma vitória ainda no primeiro turno.

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Para a especialista, a principal característica de Paes na disputa é justamente a capacidade de construir uma trajetória eleitoral própria, sem depender da polarização entre os principais grupos políticos nacionais. “Ele tem uma trajetória independente. Foi prefeito de 2009 a 2016, depois se candidatou ao governo do Estado, perdeu e voltou a ser prefeito. Foi reeleito. Então ele tem uma trajetória eleitoral própria”, afirma.

O ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), é candidato ao governo do Rio de Janeiro durante convenção do PSD na capital fluminense

Foto: PAULO CARNEIRO/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

O peso da capital

Segundo Mayra, a passagem de Paes pela Prefeitura do Rio ampliou sua base eleitoral e garantiu ao candidato um ponto de partida relevante na disputa estadual. A capital, que é o segundo maior colégio eleitoral do País, é onde o prefeito construiu sua maior identificação política.

"A capital tem 40% dos votos do estado do Rio de Janeiro. Isso significa que alguém que é amplamente conhecido na capital já parte de um patamar de votos elevado”, explica. A experiência anterior na disputa pelo governo do Estado também contribuiu para ampliar o conhecimento de seu nome entre os eleitores de outras regiões.

Para a professora, essa combinação ajuda a explicar por que Paes conseguiu iniciar a corrida em uma posição de destaque e chegou a aparecer, nas primeiras pesquisas, com condições de encerrar a disputa no primeiro turno.

O que mudou na disputa
O cenário, porém, já não é tão favorável a Paes quanto no início da corrida. A vantagem que chegou a colocá-lo em uma posição de possível vitória no primeiro turno diminuiu nos últimos meses. Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira, 24, mostra o ex-prefeito com 43% das intenções de voto, enquanto o deputado estadual Douglas Ruas (PL) aparece com 30%. Paes manteve o percentual registrado em 11 de setembro, e Ruas avançou cinco pontos, de 25% para 30%. Com isso, a distância entre os dois caiu de 18 para 13 pontos. Anthony Garotinho (Republicanos), por sua vez, oscilou de 10% para 8%.
Em uma simulação de segundo turno entre os dois, o candidato do PSD mantém 54%, enquanto o deputado do PL passou de 34% para 38%. A vantagem, nesse cenário, caiu de 20 para 16 pontos. O levantamento ouviu 1.204 eleitores entre 22 e 24 de setembro, com margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada na Justiça Eleitoral sob o número RJ-02205/2026.
Na avaliação de Mayra, o avanço de Ruas está relacionado à definição gradual do eleitorado de direita sobre seu candidato. Para ela, houve inicialmente uma dificuldade desse grupo em identificar quem representaria o campo bolsonarista na disputa. "Conforme essa identificação vai acontecendo, esse candidato vai ganhando fôlego, vai ganhando intenção de voto", afirmou.
A força de Ruas também está relacionada à estrutura política do PL no Estado. Filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson, o deputado disputa com o apoio da legenda fluminense e conta com uma base em uma cidade que é o segundo maior colégio eleitoral do Rio. Mayra destaca ainda a presença do partido no Legislativo e nos municípios, o que dá ao candidato uma estrutura territorial relevante para a campanha.
A cientista política também aponta a candidatura de Garotinho como um elemento que alterou a dinâmica da disputa. Segundo ela, o ex-governador conseguiu romper parcialmente a polarização e atrair uma parcela relevante dos eleitores, mas sua situação na Justiça Eleitoral gera insegurança entre seus próprios apoiadores.
Situação de Garotinho
A situação jurídica de Garotinho pode ter impacto direto no desfecho da eleição. Enquanto o ex-governador permanecer na disputa, as pesquisas apontam para a possibilidade de um segundo turno entre Paes e Ruas. Se os votos de Garotinho forem posteriormente anulados, porém, Paes poderá atingir o percentual necessário para encerrar a eleição no primeiro turno, em 4 de outubro.
A candidatura de Garotinho foi indeferida por unanimidade pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) em 11 de setembro. Segundo a Corte, o ex-governador está com os direitos políticos suspensos por oito anos em razão de uma condenação definitiva por improbidade administrativa. O caso envolve o desvio de recursos da Saúde, ocorrido quando Garotinho era secretário de Governo durante a gestão de sua mulher, a ex-governadora Rosinha Garotinho. A defesa contesta a decisão e afirma que o período de suspensão dos direitos políticos já foi cumprido.
A decisão do TRE-RJ, no entanto, não interrompeu a campanha. Garotinho segue em busca de uma reversão e reclamou, nesta semana, da demora na análise dos embargos de declaração apresentados por sua defesa. O primeiro recurso foi protocolado no próprio tribunal e ainda aguarda julgamento. Se for rejeitado, a defesa poderá recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Enquanto não houver uma decisão definitiva, Garotinho pode continuar concorrendo sub judice, com base em uma decisão liminar da Justiça. Não há normas que obriguem os tribunais a concluírem a análise do caso antes da eleição. Se a inelegibilidade for confirmada posteriormente, os votos recebidos pelo candidato serão anulados.
Investigações de corrupção atingem PL e aliados no Rio
Um dos fatores que, segundo a cientista política Mayra Goulart, enfraquecem Douglas Ruas na disputa é a crise enfrentada pelo PL e por seu campo político no Rio, em meio a investigações envolvendo integrantes, aliados e nomes que compunham o palanque de Flávio Bolsonaro (PL) no Estado.
"O PL do Rio de Janeiro está passando por uma crise muito profunda e com difícil capacidade de recuperação. Porque são inúmeras as evidências de associação de lideranças do PL com o crime organizado", afirmou a cientista política.
Para Mayra, o cenário também dificulta a defesa de uma das principais bandeiras do partido no Estado, a segurança pública. "Eles sempre se apresentam como tendo uma solução para um problema do qual eles fazem parte, na medida em que há evidências de associação com o crime organizado", avaliou. Como exemplo da perda de mobilização da legenda, a cientista política citou a ausência de uma manifestação do PL no Rio no 7 de Setembro deste ano. "Esse ano, sequer houve manifestação no 7 de setembro aqui, sendo que, se a gente lembrar, a maior manifestação, aquela de 2022, que reuniu 64.000 pessoas, foi em Copacabana".
O partido e seu campo político também enfrentaram, nos últimos meses, apurações sobre lavagem de dinheiro, suspeitas envolvendo emendas parlamentares e possíveis relações entre políticos e organizações criminosas. Um dos episódios mais recentes envolve o ex-governador Cláudio Castro (PL), que desistiu da pré-candidatura ao Senado após ser alvo de duas operações da Polícia Federal. As investigações apuram suspeitas relacionadas às relações de Castro com o empresário Ricardo Magro, do grupo Refit, e com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Castro nega irregularidades.
Mais recentemente, uma investigação envolvendo diretamente o entorno de Flávio Bolsonaro trouxe à tona conversas entre uma assessora do senador e Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, condenado pelo Supremo Tribunal Federal por envolvimento no assassinato de Marielle Franco. Segundo a Polícia Federal, a assessora tratou com Calixto da liberação de R$ 199 mil em emendas destinadas a um projeto de futebol no Rio. A PF vê indícios de desvio dos recursos e aponta proximidade entre o miliciano e o gabinete do senador. Flávio afirma que os repasses foram feitos dentro da lei e seguiram critérios técnicos.
Fonte: Portal Terra
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