Os resultados do 1º turno das eleições revelaram cenários distintos dos projetados por pesquisas de opinião divulgadas nas últimas semanas em alguns estados. Tanto no âmbito nacional, quanto no estadual, os principais institutos do países projetaram cenários divergentes dos observados nas urnas nesse domingo (4/10).Os institutos minimizaram os erros, alegando que as pesquisas indicam “retratos do momento” e que houve até indicação de forte um “voto útil de direita” a favor de Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial.Mas o fato é que nenhuma das últimas sondagens divulgadas para disputa presidencial conseguiu projetar o resultado real de domingo. Levantamentos feitos por Datafolha, Quaest, Atlas, CNT e Real Time Big Data, aos dias anteriores ao da votação, mostram o presidente Lula na liderança das intenções de voto.Ao fim da apuração de 100% das urnas já na madrugada de segunda-feira (5/10), apontavam para o senador Flávio Bolsonaro (PL) na vantagem com 47% dos votos, seguido por Lula com 45%.A diferença foi de 2,2 milhões de votos a favor do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).Projeções do 1º turno para presidenteDatafolhaLula (PT): 45%Flávio Bolsonaro (PL): 42%Pesquisa QuaestLula (PT): 46%Flávio Bolsonaro (PL): 45%Real Time Big Data Lula (PT): 43%Flávio Bolsonaro (PL): 39%Pesquisa Atlas/IntelLula (PT): 47%Flávio Bolsonaro (PL): 44,1%Pesquisa CNTLula (PT): 47,8%Flávio Bolsonaro (PL): 42,1%GovernosOs erros também se repetiram em pesquisas para os governos locais. Situações semelhantes foram registradas no Distrito Federal e no Rio de Janeiro, por exemplo.Governo do Distrito FederalNo Distrito Federal, por exemplo, a maioria dos levantamentos mais recentes em relação ao 1º turno indicava uma vitória tranquila da atual governadora Celina Leão (PP) sobre o petista Leandro Grass ainda em 1º turno.No entanto, ao fim da apuração, as urnas indicaram a necessidade de realização de segundo turno entre os dois. Celina recebeu 49,9% e Grass ficou com 34,4% dos votos válidos.As pesquisas no DFQuaestCelina Leão (PP): 53%Leandro Grass (PT): 32%Real TimeCelina Leão (PP): 52%Leandro Grass (PT): 29%DatafolhaCelina Leão (PP): 55%Leandro Grass (PT): 27%AtlasCelina Leão (PP): 45,3%Leandro Grass (PT): 34%Governo do Rio de JaneiroO resultado do 1º turno no estado do Rio de Janeiro demonstra uma larga discrepância com os últimos cenários projetados por institutos de pesquisa. No estado, a maioria dos levantamentos traziam o ex-prefeito da capital carioca, Eduardo Paes (PSD), na vantagem das intenções de voto, seguido por Douglas Ruas (PL).A apuração das urnas no estado, contudo, foi encerrada com Ruas liderando as intenções de voto com 49% dos votos, seguido por Paes que angariou 42% dos votos. A definição para o próximo governador carioca em um primeiro momento ficará para o 2º turno, disputado no dia 25 de outubro.No entanto, caso a desistência do ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos) de um recurso seja confirmado pela Justiça Eleitoral e os votos que ele recebeu sejam considerados nulos, Ruas já venceria em 1º turno. O caso ainda está sendo analisado.As pesquisas no RioQuaest Eduardo Paes (PSD): 49%Douglas Ruas (PL): 40%Real Time Big Data Eduardo Paes (PSD): 37%Douglas Ruas (PL): 31%Datafolha Eduardo Paes (PSD): 49%Douglas Ruas (PL): 40%AtlasIntelEduardo Paes (PSD): 46,4%Douglas Ruas (PL): 38%Erros no SenadoMas os erros não aconteceram somente em relação à disputa presidencial e aos governos locais. A situação também se repetiu em várias unidades da federação. Três, em especial, chamaram a atenção: Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.As pesquisas indicavam muita disputa pelas vagas. No entanto, após a apuração das urnas, as situações foram bem diferentes.Senado em BrasíliaNa capital federal, os institutos traziam um cenário com Michelle Bolsonaro (PL) quase sempre liderando, mas a segunda vaga ora oscilava entre Bia Kicis (PL) e Leila do Vôlei (PDT), com a petista Erika Kokay pontuando bem em algumas situações.Abertas as urnas, a situação foi bem diferente: Michelle ficou com 29,05% e Bia com 27,44%. As duas foram eleitas. Leila terminou com 21,25% e Erika ficou com 18,91%.Pesquisas Senado DFQuaestMichelle: 31%Leila: 27%Bia: 24%Erika: 17%DatafolhaMichelle: 30Bia: 24Leila: 21Erika: 18AtlasIntelBia: 27,2%Michelle: 26,1%Leila: 21,3%Érika: 21,3%Senado no Rio de JaneiroA corrida para o Senado no Rio de Janeiro também não foi diferente, com a reeleição do senador Carlos Portinho (PL) com 26% dos votos e de Carlos Jordy (PL) com 24%, as últimas sondagens apontavam a candidata do Partido dos Trabalhadores (PT), Benedita da Silva, como ocupante de uma das vagas para a Casa Alta pelo estado.E, em alguns dos levantamento, com a maior vantagem numérica entre os candidatos. Benedita, contudo, não foi eleita pelo estado.Quaest Carlos Portinho (PL): 23%Carlos Jordy (PL): 22%Benedita da Silva (PT): 21%Pedro Paulo (PSD): 13%Real Time Big Data Carlos Jordy (PL): 18%Benedita da Silva (PT): 15%Carlos Portinho (PL): 14%Pedro Paulo (PSD): 12%Datafolha Benedita da Silva (PT): 26%Carlos Potinho (PL): 19%Carlos Jordy (PL): 18%Pedro Paulo (PSD): 13%AtlasIntelCarlos Jordy (PL): 23%Benedita da Silva (PT): 21,8%Carlos Potinho (PL): 21,8%Mônica Benicio (PSOL): 11,6%Senado em SPAs pesquisas de véspera sobre o Senado em São Paulo mostravam uma situação bastante embolada. As projeções indicavam um empate técnico entre os quatro principais concorrentes. Pelos dados, não era possível indicar quem seria eleito.No entanto, com a apuração das urnas, a situação foi completamente diferente: Guilherme Derrite (PP) teve 30,59%, André do Prado (PL) 29,28%, Simone Tebet (PSB) 19,23% e Marina Silva 18,12%.As pesquisas recentes para o Senado em SPQuaestGuilherme Derrite (PP): 25%André do Prado (PL): 23%Marina Silva (Rede): 22%Simone Tebet (PSB): 22%DatafolhaDerrite: 22%André: 22%Marina 21%Tebet: 20%AtlasIntelDerrite: 25,9%André: 24,2%Tebet: 22,2%Marina: 21,5%“Retratos de momento”Procurado pelo Metrópoles, o diretor executivo do instituto Real Time Big Data minimizou as diferenças e explicou que as pesquisas eleitorais são “retratos de momento” e não previsões de futuro. “O conceito de pesquisa é diferente do resultado da urna”, explica Lucas Thut Sahd.“As pesquisas representam um cenário daquele espaço do momento em que ela foi feita e podem apontar tendências”, afirma. Ainda segundo Sahd, as pesquisas foram capaz de captar o crescimento de Flávio Bolsonaro nos últimos meses, inclusive apontando o senador com vantagem numérica em um 2º turno contra Lula.“Todas as pesquisas captaram a subida de Flávio. Não mostram ele passando Lula, mas nesses resultados também pesam o sentimento do eleitor no dia e no momento da votação, que as pesquisas quantitativas não são capazes de captar. O que vimos foi os candidatos de terceira via desidratando e, como representada por candidatos vistos mais como de direita, que podem ter migrado para Flávio. A questão do voto útil e a totalização dos votos que é feita com contagem das abstenções”, analisa o diretor-executivo do Real Time.Em post no X, Felipe Nunes, diretor da Quaest, falou em “poucas surpresas” e disse que as pesquisas captaram um “voto útil de direita” em Flávio.“Quem acompanhou a eleição brasileira pelas tendências das pesquisas da Quaest teve poucas surpresas na noite de ontem [4/10]. Os levantamentos publicados conseguiram captar tendências que se confirmaram nas urnas, incluindo o voto útil da direita na eleição presidencial, um recorde de vitórias em 1º turno nos estados e o desfecho de algumas das disputas estaduais mais apertadas do país”, disse.“Na eleição para presidente, a Quaest divulgada na véspera captou forte ‘voto útil de direita’ em favor de Flávio Bolsonaro. Caiu de 14% para 7,8% a votação dos outros candidatos na última semana, enquanto Flávio foi de 40% a 47%. Lula ficou estável. As urnas apenas confirmaram a tendência que já aparecia na pesquisa”, defendeu. Leia também BrasilEleições: 9 ex-ministros do governo Lula 3 são eleitos; 12 não conseguem São PauloEleições 2026: veja famosos que não foram eleitos em SP BrasilRio: 2º turno entre Ruas e Paes depende de decisão do TSE sobre Garotinho BrasilPL de Flávio Bolsonaro elegeu governadores em 5 estados; PT elegeu em 3 Distorções no SenadoEm relação à votação para o Senado Federal, o professor do curso de Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI) Elton Gomes, pontua que é difícil fazer projeções para a Casa Alta do Congresso Nacional. “O brasileiro, via de regra, se importa muito pouco com a eleição de senador e, portanto, leva a essas distorções nas pesquisas”, pontua.“Esse tipo de comportamento, profundamente arraigado no Brasil, traz dificuldades para os institutos de pesquisas. Além do baixo interesse, há um nível muito grande de indecisos e muita gente opta por só escolher o senador nos últimos dias ou até no dia da eleição, mesmo sem entender muito bem o que ele faz”, avalia Gomes.Já o cientista político Antônio Lavareda também chama atenção para o recorte feito nas pesquisas, ressaltando que os levantamentos retratam a distribuição das preferências entre os eleitores considerados na amostra, e não necessariamente o resultado final da votação.O analista ainda registra que o índice de abstenção pode ter prejudicado mais o presidente Lula do que o senador Flávio Bolsonaro. De acordo com Lavareda, a abstenção é historicamente mais alta entre a população de baixa renda, que é aquela que vota no candidato petista.“Quem perde voto nesse contingente é o Lula, pelo largo quantitativo dos votos dos pobres e baixa escolaridade que formam esse bloco, e faixa em que se dá a abstenção”, pontua Lavareda ao explicar que estimativa das abstenções também é desafiadora, já que um eleitor pode declarar uma intenção de voto na pesquisa, mas não comparecer às urnas no dia da eleição, o que pode gerar diferenças entre as projeções e o resultado efetivo.Ao Metrópoles, o diretor-executivo da Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, explica ainda que o instituto suspendeu as sondagens para Senado nos últimos dias antes das eleições devido à dificuldade de medir a intenção de votos real para a Casa Alta do Congresso Nacional. “Tínhamos um índice de 35% a 45% de eleitores que escolhia o primeiro candidato mas não declarava voto para a segunda vaga”, pontua Idalgo ao explicar que este é um hábito comum do eleitor brasileiro que tende a decidir o voto para o Senado próximo ao dia da eleição, prejudicando as projeções.

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