Palmeiras e Estudiantes têm reencontro marcado na final da Libertadores de 2026, 58 anos após disputarem uma final histórica e polêmica em 1968.Eram tempos muito diferentes no futebol sul-americano. Os times brasileiros davam mais importância aos campeonatos estaduais do que à Libertadores.A decisão de 1968 conta a história de um futebol que não existe mais e explica muito do conceito que se tem, ainda hoje, da rivalidade entre Brasil e Argentina.O Estudiantes é um fenômeno do futebol argentino. Um time médio de La Plata, capital da província (o equivalente aos estados no Brasil) de Buenos Aires.Fica a pouco mais de 50 quilômetros da cidade de Buenos Aires e tem pouco menos de 1 milhão de habitantes em sua área metropolitana.O Estudiantes é um time de 120 anos de idade que, até 1968, tinha dois títulos metropolitanos: 1913 e 1967 (ano em que começam os torneios nacionais no futebol argentino).A virada na história do clube teve início em 1965, quando o treinador Osvaldo Zubeldia foi contratado. Zubeldia, que não tem parentesco com Luís Zubeldia, ex-técnico de São Paulo e Fluminense, implantou uma revolução no clube e, também, no futebol da época.Deu ênfase à preparação física e ao estudo dos adversários. Trabalhou jogadas de bola parada e, principalmente, fez do seu time um grupo de gladiadores. O Estudiantes de Zubeldia fez do antijogo sua principal arma.O que fazia o time de Zubeldia? Batia muito, provocava, xingava e protagonizava um jogo físico e emocional que tirava do sério os adversários argentinos e, principalmente, os brasileiros.O time tem o apelido de Pincha. Pinchar é espetar em espanhol. Há controvérsias quanto à origem do apelido. Uma linha diz que é por causa de estudantes de medicina que espetavam ratos para fazer experiências em laboratório.Outra aponta para um torcedor do clube que trabalhava no mercado de La Plata e que caçava ratos espetando os animais. Daí veio o apelido Pincharrata (espeta rato), que foi o primeiro do clube, posteriormente reduzido para Pincha.O time de 1968 do Estudiantes ficou marcado por uma história que trafega entre lenda e verdade. Dizem que Carlos Bilardo, volante da equipe e futuro técnico campeão mundial com a Argentina em 1986, entrava em campo com alfinetes de fralda e espetava os adversários.Bilardo nega, e os adversários dizem que era verdade. Em 2011, Bilardo, que é médico ginecologista, gravou um comercial de apoio a testes rápidos de sangue para identificar diabetes chamado “As Espetadas de Bilardo”. Na peça, ele diz que espetava os adversários para testar se tinham diabetes.Fato é que Bilardo e seu companheiro de meio-campo, o volante Carlos Pachamé, batiam sem dó. Eram o que se chamava de jogadores maus. O Estudiantes não jogava, impedia os rivais de jogarem usando todos os artifícios possíveis.Zubeldia e sua comissão técnica pesquisavam tudo sobre os rivais, desde aspectos táticos e técnicos até os comportamentais. Identificavam os mais irritados, os que afinavam, tudo. Muito da ideia de catimbeiro que paira sobre o futebol argentino é por causa do Estudiantes.Mas havia um grande jogador no time: Juan Ramón Verón, apelidado de A Bruxa. Pai de Juan Sebastián Verón, ex-jogador e atual presidente do Estudiantes, chamado de A Bruxinha. Verón, pai, era um meia clássico e habilidoso, que fazia gols e abastecia o ataque de Conigliaro e Flores.A decisão da Libertadores de 1968 teve três partidas. Na primeira, em La Plata, o Estudiantes venceu por 2 a 1, de virada, em 2 de maio. Cinco dias depois, o Palmeiras deu o troco no Pacaembu: 3 a 1.O regulamento não previa saldo de gols e foi necessário um terceiro jogo em campo neutro. A Confederação Sul-americana deu as opções de Santiago do Chile e Montevidéu. O Estudiantes escolheu Montevidéu, e o Palmeiras concordou. Um erro estratégico que se explica pelo contexto da época.O time palmeirense disputava o título paulista e tinha dois clássicos contra Corinthians e Santos. Na cabeça de dirigentes, jogadores e do treinador, o argentino Alfredo González, era melhor ir ao Uruguai, mais perto, pensando em preservar time e torcida de uma viagem longa a Santiago.Erro crasso, principalmente em se tratando de um treinador argentino. Montevidéu e Buenos Aires são separadas pelo Rio da Prata. Dava para cruzar de barco facilmente, serviço direto entre as capitais, ou combinar barco e ônibus cruzando até Colônia do Sacramento.O terceiro jogo foi disputado em Montevidéu, em 16 de maio de 1968. Sob frio intenso e com um estádio Centenário lotado de argentinos, que eram 90% dos presentes. O Estudiantes venceu por 2 a 0, com gols de Ribaudo e Verón.Mesmo com craques do porte de Ademir da Guia, Dudu, Servílio, Baldochi, Ferrari e Tupãzinho, o Palmeiras não resistiu à catimba e ao antijogo (além do talento de Verón pai). Ademir e Dudu apanharam o tempo todo e ficaram prejudicados para a disputa do Paulistão, que o Palmeiras também perdeu.O Estudiantes venceu a Libertadores três vezes seguidas, de 1968 a 1970. Na final, passou pelo Peñarol do Uruguai, em dois jogos, o segundo em Montevidéu.Outra coincidência: o treinador do Peñarol era Oswaldo Brandão, técnico histórico do Palmeiras. O quarto título veio em 2008, em cima do Cruzeiro, que, como o Palmeiras, um dia foi Palestra Itália.O Estudiantes atual é um time modesto se comparado ao Palmeiras. Não bate como a equipe de 1968, mas gosta do jogo físico. Foi assim que eliminou o Flamengo, com grande consciência tática e capacidade defensiva. Segurou o melhor ataque do futebol brasileiro em 180 minutos.É de se imaginar que, pela facilidade de acesso, os platinos sejam maioria no Centenário no dia 28 de novembro. Embora seja mais tranquilo ir do Brasil a Montevidéu em 2026 do que era em 1968, o que permite grande afluência de palmeirenses. Foi em Montevidéu que o Palmeiras venceu a Libertadores de 2021, contra o Flamengo.Um jogo de muita história, que vai parar a América do Sul.*Maurício Noriega é comentarista esportivo da RECORDFique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp








