O aumento das recuperações judiciais no Brasil virou, em ano eleitoral, matéria-prima para a narrativa de que o governo do presidente Lula estaria levando empresas à falência. Convém sermos honestos neste debate e não permitir que os eleitores e cidadãos mergulhem em falácias oportunistas e eleitoreiras.Recuperação judicial não é sinônimo de falência, o volume das dívidas em reestruturação não mede por si só a saúde da economia e a multiplicação dos pedidos resulta de fatores distintos: juros excepcionalmente altos, alavancagem anterior, mudanças legais, crises setoriais, eventos climáticos e, em alguns segmentos, uso questionável do próprio instituto.A Serasa registrou em 2024, pela metodologia então utilizada, 2.273 pedidos de recuperação judicial, recorde da série. Com metodologia atualizada, mostrou que em 2025 foram 977 processos envolvendo 2.466 empresas. Mas há um dado quase sempre omitido: os pedidos de falência caíram 19% em 2025.E, nos primeiros quatro meses de 2026, segundo o Ministério da Fazenda, os novos pedidos de recuperação judicial recuaram 29,5% ante igual período de 2025.É preciso separar fenômenos que vêm sendo misturados de propósito. Recuperação judicial é um instrumento criado justamente para evitar que uma empresa viável seja liquidada por uma crise financeira temporária. É mecanismo de renegociação e reorganização de passivos, e não uma certidão de óbito empresarial.Quando se divulga que cerca de R$ 180 bilhões em dívidas estão submetidos a recuperações judiciais ou extrajudiciais, deve-se dizer também que esse valor é fortemente influenciado por poucos processos gigantescos.A Braskem negocia cerca de US$ 10,9 bilhões em dívidas, aproximadamente R$ 56 bilhões. O Grupo Casas Bahia declarou R$ 17,3 bilhões no pedido de recuperação. Somar passivos dessa dimensão e apresentá-los como se fossem milhares de empresas quebradas pelo governo é propaganda, não análise.Nem mesmo os casos mais conhecidos permitem essa simplificação. A situação das Casas Bahia parece longe de ter nascido em janeiro de 2023, mês de início do atual mandato do presidente. A empresa carregava uma estrutura financeira construída num período de dinheiro barato, forte alavancagem e expansão, além das profundas mudanças no varejo.JurosA passagem de uma Selic de 2% no fim de 2020 e início de 2021 para juros reais persistentemente elevados agravou a situação de empresas que trabalham com margens estreitas e dependem intensamente do crédito. Apagar essa trajetória para atribuir tudo ao governo Lula é apenas uma conveniência eleitoral.Os juros são parte essencial do problema. A Selic chegou a 15% ao ano em junho de 2025 e permaneceu nesse nível até o início de 2026. Crédito caro reduz capacidade de refinanciamento, comprime capital de giro e transforma dívidas administráveis em dívidas problemáticas.Isso exige discutir seriamente a excepcionalidade dos juros brasileiros, mas não autoriza transformar cada empresa em recuperação em vítima direta do Palácio do Planalto. A taxa básica é definida pelo Copom e seus efeitos variam conforme setor, alavancagem, modelo de negócios e decisões tomadas anos antes.O agronegócio merece atenção particular. Segundo a Serasa, foram 1.990 solicitações de recuperação judicial ligadas à cadeia do agro em 2025, considerando produtores pessoas físicas e jurídicas e empresas do setor, 56,4% acima de 2024.Há razões econômicas reais: a produção agropecuária caiu 3,2% em 2024, houve perdas na soja e no milho, seca, enchentes no Sul, queda de preços de grãos, custos maiores e juros elevados. Negar esses problemas seria tão errado quanto atribuir todos os pedidos à política econômica do governo.Mas existe outro lado que também precisa ser dito. A presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, afirmou publicamente que uma “parcela significativa” dos clientes do agro em recuperação judicial teria recebido, na avaliação da instituição, má orientação de escritórios de advocacia.O banco identificou escritórios que fariam propaganda para que produtores recorressem à recuperação antes mesmo de tentar renegociar suas dívidas. O próprio Conselho Nacional de Justiça editou, em março deste ano, o Provimento 216, com regras nacionais para recuperação judicial de produtores rurais e o objetivo expresso de reduzir o uso indevido do instituto.Há ainda uma origem institucional anterior ao atual governo. A reforma da Lei de Recuperações, aprovada em 2020, no governo Bolsonaro, disciplinou e ampliou o acesso dos produtores rurais à recuperação judicial.Em 2022, o Superior Tribunal de Justiça consolidou o entendimento de que produtores com mais de dois anos de atividade poderiam recorrer ao instrumento mesmo com registro empresarial recente. Não se trata de dizer que essas mudanças foram erradas, mas de reconhecer que ampliaram, antes da posse de Lula, o universo potencial de usuários da recuperação judicial.Parece intelectualmente desonesto ignorar isso e usar o crescimento posterior como prova automática de deterioração provocada pelo governo.PIB Também é preciso olhar para a economia real. O PIB brasileiro cresceu 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025. Neste último ano, a agropecuária avançou 11,7%.A taxa média de desemprego caiu para 5,6% em 2025, a menor da série histórica da PNAD Contínua, e a população ocupada atingiu 103 milhões de pessoas, também recorde. Esses números não eliminam a inadimplência elevada, os problemas de milhares de empresas nem os efeitos perversos dos juros, mas tornam insustentável a imagem de uma economia em colapso empresarial generalizado.A inadimplência, de todo modo, deve ser enfrentada. A Serasa registrou 8,9 milhões de empresas inadimplentes no fim de 2025, com R$ 213 bilhões em dívidas negativadas, quadro grave sobretudo para micro e pequenas empresas.O governo lançou instrumentos de renegociação: o Desenrola Pequenos Negócios renegociou R$ 7,5 bilhões em dívidas de mais de 122 mil MEIs e micro e pequenas empresas.O Banco do Brasil talvez seja o melhor exemplo da complexidade que o slogan eleitoral tenta esconder. A instituição sofreu com a deterioração da carteira rural, mas o próprio banco atribui o resultado a uma combinação de quebra de safra, eventos climáticos, preços agrícolas, juros, inadimplência e recuperações judiciais.Há produtores efetivamente atingidos por crises, empresas excessivamente alavancadas e, segundo a direção do banco, casos em que a recuperação judicial pode ter sido acionada inadequadamente. Nenhuma análise séria reduz situações tão diferentes a uma causa única.O debate verdadeiro deveria ser outro. O Brasil precisa reduzir estruturalmente o custo de capital, melhorar os instrumentos de reestruturação empresarial, impedir abusos sem retirar direitos de quem realmente necessita deles, aperfeiçoar as regras para produtores rurais, ampliar mecanismos de renegociação e preservar o crédito para quem produz.Recuperação judicial deve servir à preservação de empresas viáveis e empregos, não à socialização oportunista de prejuízos nem a uma estatística arrancada do contexto para provar uma tese eleitoral.Houve aumento das recuperações judiciais e existe um problema real de endividamento empresarial. Mas falência e recuperação são fenômenos distintos, os pedidos já recuam em 2026, parte importante da expansão está concentrada no agro e as causas são múltiplas, várias anteriores ao atual governo. Economia séria exige causalidade, série histórica e contexto. O resto é slogan.José Dirceu é ex-ministro-chefe da Casa Civil, ex-deputado federal e ex-deputado estadual pelo estado de São Paulo








