Belo Horizonte — Comprar o próprio carro, visitar mais a mãe nos fins de semana e, quem sabe, pegar a estrada até a praia. São planos que ficaram mais próximos para o mineiro Rainer Martins, de 20 anos, depois de conquistar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH).Nascido sem os braços, o jovem, que usa os pés para realizar grande parte das atividades do dia a dia, foi aprovado no exame prático em agosto, após meses de um processo que envolveu avaliação médica, busca por uma autoescola com veículo adaptado e idas outra cidade para se preparar para a prova.“Um sonho”Ele conseguiu iniciar esse processo no fim do ano passado, mas conta que foi trabalhoso e burocrático. “Eu quis fazer durante as férias da faculdade, porque sou graduando de Agronomia na Universidade Federal de Lavras (Ufla) e estou no segundo período. Queria aproveitar o recesso para tirar a carteira, mas não deu por causa da burocracia da junta médica do Detran. Demora marcar a consulta e receber o laudo.”Ele recebeu o laudo no início de março, quando as aulas já tinham retornado. “Nas férias do meio do ano, consegui iniciar o processo. É um pouco difícil porque depende de as autoescolas terem as adaptações necessárias para o seu caso específico, descritas no laudo”, contou.No laudo dele, estava descrita a necessidade de um carro automático e adaptado, com pomo — uma espécie de apoio para conduzir o volante — e controles do painel adaptados para os membros inferiores. Leia também Minas GeraisCiclista mineiro viraliza com manobras em viaduto e posto de gasolina Minas GeraisRumo a teste do Galo em BH, menino ganha homenagem em voo e se emociona Foi em Pará de Minas, na Região Centro-Oeste de Minas Gerais, a cerca de 220 km de Lavras, onde mora, que ele encontrou uma autoescola adaptada. Segundo ele, foi bem acolhido no local.“Foi um processo em que eles disseram: ‘Ó, vai ser uma missão para nós fazermos você tirar a carteira’. Meu instrutor, Isaías, sempre falava isso. Então, os principais desafios que tive para conseguir a CNH foram ter o laudo, a demora e o despreparo das pessoas ao me receberem, uma pessoa com deficiência”, contou.No dia 5 de agosto, ele fez o exame prático e foi aprovado. Ao receber a notícia, comemorou a realização do sonho. “Essa conquista representa esforço, garra e também autonomia. É a conquista de uma liberdade que vou ter a partir do momento em que tiver meu carro”, contou.Autonomia desde a infânciaRainer nasceu em Belo Horizonte, mas viveu a maior parte da vida em Divinópolis, na Região Centro-Oeste de Minas. Hoje, mora em Lavras, no Sul do estado, por causa da faculdade.Rainer cursa o segundo período de Agronomia na Universidade Federal de Lavras (UFLA) e escolheu a área inspirado pelo pai, que é produtor de leite“Esse desejo pelo curso Agronomia está muito relacionado ao meu pai. Ele é produtor de leite em São Tiago, no Campo das Vertentes. Como tenho dificuldade na parte prática, preciso ter conhecimento teórico e técnico”, disse.Antes da graduação, ele fez o curso técnico em Agropecuária na Central de Ensino e Desenvolvimento Agrário de Florestal (Cedaf), vinculada à Universidade Federal de Viçosa (UFV), já durante o ensino médio.“Para obter mais conhecimento, entrei na Ufla. Assim, consigo acompanhar os estudos e também o trabalho dele. Quero levar isso para frente. Valorizo muito o trabalho”, afirmou.Desde criança, a família o estimulou a ter independência. “Minha mãe descobriu minha condição na gravidez e pensou: ‘O que posso fazer para que meu filho consiga se desenvolver?’. Ela falava que seria cruel não preparar um filho para o mundo, porque o mundo é difícil, a vida é difícil.”Segundo ele, a mãe costuma dizer que é preciso “estar preparado para o despreparo do mundo”. Por isso, ela sempre buscou instituições e atividades que pudessem ajudá-lo a desenvolver autonomia.“Para aprender a escrever, comer e me vestir, essas atividades foram trabalhadas nas terapias, em que eu buscava formas de me adaptar. E a forma como me adaptei foi com os pés. Então, meus pés são como as mãos e as pernas são como os braços”, disse.Uso dos pés, queixo e tronco“É a forma como vivo hoje, fazendo a maioria das coisas com os pés. Também uso a boca, o queixo e o tronco, dependendo da situação”, contou.Segundo ele, essa autonomia foi trabalhada ao longo da vida por meio de atividades como equoterapia, hidroterapia, terapia ocupacional e artes marciais, como jiu-jítsu, judô e muay thai.A decisão de tirar a carteira de motorista veio, principalmente, pela busca de mais praticidade no dia a dia. “Como moro em Lavras, tenho vontade de ir a São João del-Rei, que é perto, e fazer uma viagem de maria-fumaça. Quem sabe um dia ir para a praia também, dirigindo. Mas o principal é poder ir para a casa da minha mãe nos fins de semana e visitá-la com mais frequência”, finalizou.








