A partida entre Flamengo e Atlético Mineiro pelo Grupo 3 da Copa Libertadores da América de 1981 foi disputada no dia 21 de agosto de 1981 no Estádio Serra Dourada, em Goiânia. As equipes contavam com desempenhos parecidos, ambas com 8 pontos, 2 vitórias e 4 empates cada uma, e ocupavam as duas primeiras posições do grupo. Dessa forma, uma partida de desempate em campo neutro teve de ser disputada, conforme o regulamento, uma vez que apenas uma equipe de cada grupo avançava para a semifinal. Durante a partida, o árbitro José Roberto Wright expulsou cinco jogadores do Atlético, fato que, pelas regras do futebol, ocasiona o fim imediato do jogo e a vitória da equipe adversária por W.O., pois os times precisam dispor de, ao menos, sete jogadores em campo. Assim, o jogo foi encerrado aos 33 minutos do primeiro tempo, com o Flamengo declarado vencedor e, por conseguinte, avançando de fase. Em virtude disso, houve imensa confusão no gramado, com revolta por parte dos jogadores atleticanos e intervenção da Polícia Militar para conter os ânimos. O presidente do Atlético, irresignado, ainda tentou recorrer, solicitando a anulação da partida, sem sucesso. O Flamengo ainda superaria os clubes Deportivo Cali e Jorge Wilstermann no triangular da semifinal e terminaria campeão do torneio ao vencer o Cobreloa na decisão. As expulsões são questionadas até os tempos atuais. Wright foi e segue sendo duramente criticado por conta da rigidez excessiva e por uma suposta parcialidade em prol do clube carioca. O jornal britânico The Guardian chegou a classificar a partida como uma "farsa". Entretanto, o então atacante Zico, que jogou no dia, alega terem sido justas as expulsões e que o árbitro havia alertado previamente às equipes que não toleraria faltas por trás. O próprio árbitro alegou que não alteraria nenhuma penalidade aplicada nem mesmo se contasse com o auxílio do árbitro de vídeo, inexistente à época. O jogo foi um dos motivos para o surgimento da rivalidade interestadual entre as duas equipes, muitas vezes classificada como a maior do futebol brasileiro.

Antecedentes À época, apenas duas equipes por país associado à Confederação Sul-Americana de Futebol (CSAF, atualmente conhecida como CONMEBOL) classificavam-se para a Copa Libertadores da América, além da equipe campeã no ano anterior. No Brasil, os qualificados seriam o campeão e o vice-campeão do Campeonato Brasileiro de 1980, respectivamente Flamengo e Atlético Mineiro, que contavam com equipes reputadas como duas das melhores da história do futebol nacional. Já na decisão do campeonato, houve uma polêmica na partida de volta disputada no Maracanã. Na ocasião, o árbitro José de Assis Aragão expulsou Reinaldo por ter passado na frente da bola quando Marinho se preparava para cobrar um tiro de meta. Reinaldo recebeu o segundo amarelo e teve que deixar o campo quando o jogo estava 2 a 2, placar que daria o título ao Atlético em virtude da vitória por 1 a 0 no jogo da ida no Mineirão. No fim, o Flamengo marcou mais um e o placar ficou em 3 a 2, resultando em um empate em 3 a 3 no placar agregado. Contudo, devido à melhor campanha na semifinal, o rubro-negro conquistou seu primeiro título brasileiro. O chaveamento da Libertadores de 1981 era por país. Portanto, os dois brasileiros classificados ocuparam o Grupo 3 ao lado dos paraguaios Cerro Porteño e Olimpia. Por terminarem a fase de grupos empatados nas duas primeiras colocações com a mesma quantidade de pontos e vitórias, Flamengo e Atlético tiveram de disputar uma partida extra em campo neutro. Em caso de empate nesse jogo, uma prorrogação de trinta minutos seria disputada. Se persistisse a igualdade no placar, o Flamengo avançaria em virtude do maior saldo de gols.

Classificação final do Grupo 3 da Copa Libertadores da América de 1981

Durante uma reunião das equipes com Abílio de Almeida, representante da CSAF, houve uma disputa em relação ao estádio no qual o jogo seria disputado. Cada clube pretendia trazê-lo para seu próprio campo, e houve até mesmo uma proposta de jogos de ida e volta no Mineirão e no Maracanã. Uma outra alternativa, proposta pelo clube mineiro, era de levar a partida ao Estádio do Morumbi, em São Paulo. Entretanto, o então presidente da Confederação Sul-Americana, Teófilo Salinas, remeteu um fax à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) no qual elegia o Estádio Serra Dourada, que dispunha de um dos melhores gramados e maiores dimensões de campo. A decisão desagradou a diretoria do Atlético e agradou a do Flamengo, que teria criado um impasse proposital para levar a partida a Goiânia. Na ocasião, a CSAF também selecionou o árbitro José Roberto Wright, experiente em decisões do Campeonato Brasileiro, para apitar o jogo. De acordo com o Jornal dos Sports, a escolha também desagradou o clube mineiro porque a origem carioca de Wright prejudicaria a imparcialidade.

A partida Atlético e Flamengo viajaram no mesmo avião para Goiânia. O voo da Varig deixou o Rio de Janeiro, fez escala em Belo Horizonte e depois pousou no Centro-Oeste. Os jogadores tinham boas relações entre si por serem companheiros de equipe na seleção brasileira. O árbitro José Roberto Wright havia se atrasado, chegando ao estádio quando faltavam poucos minutos para o início da partida, quando já havia sido escalado outro árbitro para substituí-lo. O jogo iniciou e prosseguiu normalmente, porém com cartões amarelos a Cerezo, Palhinha, Éder e Vaguinho, além de uma advertência a Mozer, do Flamengo. De acordo com Zico, capitão do rubro-negro, Wright avisou a ele e a Reinaldo, capitão do time mineiro, que qualquer falta por trás resultaria em cartão vermelho. Assim, aos 33 minutos do primeiro tempo, o próprio Reinaldo cometeu uma infração dessa forma e foi expulso. Os jogadores do Atlético e a torcida esboçaram uma revolta, rapidamente contida. Poucos minutos mais tarde, após uma falta, Éder esbarrou no árbitro e também foi expulso. Após o ocorrido, a confusão se generalizou. Dirigentes do Atlético invadiram o gramado para agredir Wright, que teve de ser protegido pela Polícia Militar, e o técnico Carlos Alberto Silva tentou retirar a equipe de campo. Durante o tumulto, foram expulsos os jogadores Chicão e Palhinha, restando apenas sete jogadores titulares do lado alvinegro, o limite mínimo para a continuidade da partida, e nenhum reserva, pois todo o banco havia sido expulso também. Após quase trinta minutos de paralisação, o árbitro solicitou aos policiais que retirassem os invasores para a retomada do jogo. Todavia, o time mineiro, já desmotivado, tentou encerrar o jogo de uma vez. Após o goleiro João Leite simular uma contusão, Osmar provocou Wright e foi expulso. Desse modo, após cinco expulsões de jogadores atleticanos, o jogo foi encerrado, com vitória declarada para o Flamengo por W.O.

Detalhes

Reações A torcida presente ao Estádio proferiu ofensas a Wright. Telê Santana, convidado da Rede Globo para a transmissão da partida, caracterizou a primeira expulsão como "lamentável" e afirmou que o árbitro "excedeu sua autoridade". Ainda em campo, Reinaldo reputou o árbitro como "intranquilo" durante o jogo. A revista Placar tratou o lance gerador da primeira expulsão como "normalíssimo" e teceu duríssimas críticas ao árbitro em sua edição imediatamente seguinte ao jogo, atribuindo-lhe a culpa por todo o incidente. O Jornal dos Sports destacou o tumulto no jogo em sua capa da edição do dia seguinte, além da revolta do time do Atlético Mineiro. Por sua vez, Wright, que já tinha histórico de rigidez e numerosas expulsões, declarou "nunca ter ficado tão nervoso apitando uma partida". Segundo ele, o ocorrido em campo "foi uma palhaçada" que ele "não poderia permitir".

Recurso O então presidente do Atlético, Elias Kalil, interpôs recurso perante a CSAF, à época sediada em Lima, no Peru, com o intuito de anular a partida. Os seis argumentos levantados pela equipe eram:

Irregularidade no campo, em virtude do padrão do corte no gramado, proibido pela FIFA; Encerramento do jogo e posterior reinício; Invasão e presença de terceiros no campo; Erro na redação da súmula, pois constava expulsão de Éder por conta de reclamações, ao contrário do declarado por Wright, que afirmou ter expulsado o jogador por ofensas morais; Declarações do árbitro, ainda em campo, com antecipação do conteúdo a ser inserido na súmula, algo proibido pelas leis esportivas; Expulsão de todo o banco do Atlético e posterior autorização para participação de dois dos reservas. A equipe enviou dois representantes a Lima para cuidar do assunto. O delegado da partida, Áulio Nazareno, declarou não levar as afirmações de Kalil a sério "por não terem partido de uma pessoa equilibrada". No dia 4 de setembro, a CSAF negou provimento ao recurso e manteve o resultado da partida, classificando, assim, o Flamengo às semifinais.

Legado A injustiça sentida pelos torcedores, dirigentes e jogadores atleticanos e a revolta contra as decisões da arbitragem foram um fator decisivo para o surgimento de uma das maiores rivalidades interestaduais do futebol brasileiro, e o título sul-americano do Flamengo é até hoje contestado por rivais. O Flamengo voltaria a jogar no Estádio Serra Dourada somente em 1982, em uma partida amistosa contra o Goiás. Reinaldo reputou "canalha" a justificativa de Wright para as decisões. Por outro lado, o jornalista Renato Maurício Prado desmereceu as acusações atleticanas, dando razão às expulsões em virtude do número elevado de cartões amarelos distribuídos nos minutos iniciais e classificando a contestação histórica como um "chororô de 40 anos". Zico, atacante e ídolo rubro negro, declarou não haver nenhum motivo para alegar que o árbitro decidiu a partida, pois a partida era entre as duas maiores equipes do futebol nacional da época e "quem vencesse terminaria campeão da Libertadores". Pontuou, ainda, que "nunca viu, em 50 anos de futebol", o alerta dado pelo árbitro a ambos os capitães, e que os jogadores da equipe mineira "mereceram" os cartões vermelhos. Wright, por sua vez, afirmou ter apenas "aplicado a regra". Posteriormente, em entrevista ao programa Esporte Espetacular, reviu os lances e declarou que não alteraria nenhuma das decisões tomadas em virtude do aviso prévio aos capitães da possibilidade de expulsão em caso de faltas duras. Em entrevista ao blog do jornalista Rica Perrone, ainda ressaltou o quão intensa e violenta a partida estava, sendo necessário ir além das advertências para conter os ânimos.

Referências