João Francisco da Matta (São João del-Rei, c. 1832 – Aiuruoca, 4 ou 5 de junho de 1909), por vezes erroneamente grafado como João da Mata, foi um compositor, maestro, instrumentista (oficleide) e tropeiro brasileiro. Virtuose de múltiplos instrumentos, é considerado uma das figuras mais emblemáticas e, ao mesmo tempo, lendárias da música mineira do século XIX, tendo atuado significativamente nas cidades de São João del-Rei, Lavras e Oliveira.
Nome e grafia O compositor assinava e era reconhecido em vida como João Francisco da Matta. Contudo, a literatura musical e a imprensa periódica do século XIX e início do XX frequentemente registraram seu nome como "João da Mata", gerando ambiguidades históricas. Para aumentar a complexidade, os registros paroquiais apontam que seu pai também se chamava João da Mata, sendo João Francisco uma possível variação adotada para distinção.
Biografia
Origens e nascimento A origem de João da Matta é envolta em incertezas, sendo parte da sua trajetória permeada por lendas. A data de seu nascimento carece de comprovação definitiva. Embora seu óbito registre a idade de 75 anos em 1909 (o que sugeriria o ano de 1834), pesquisadores como Francisco José dos Santos Braga investigam a hipótese de um batismo realizado em 28 de maio de 1832, filho legítimo de João da Mata e Antonia Maria de Sam Pio, na Matriz de Nossa Senhora do Pilar, em São João del-Rei. Sua ascendência é comumente associada à condição de descendente de escravos ou de classes sociais menos favorecidas, o que moldou sua posição na estratificada sociedade mineira oitocentista.
O "Maestro Tropeiro" Paralelamente à música, João da Matta exerceu a profissão de tropeiro, transportando cargas pelo interior de Minas Gerais e até mesmo para a Corte, no Rio de Janeiro. Essa atividade permitiu-lhe uma vasta peregrinação por cidades do Sul, Oeste e Zona da Mata mineira, difundindo suas composições de maneira quase autônoma. Sua identidade como "maestro-tropeiro" é central para entender sua produção musical esparsa e sua fama de artista errante e boêmio. Conta-se uma célebre anedota em que, ao chegar descalço e maltrapilho a Pitangui, ele teria corrigido duas senhoritas que executavam erroneamente uma de suas partituras, revelando sua verdadeira identidade ao tomar o violino e demonstrar o compasso correto.
Morte João da Matta faleceu nos dias 4 ou 5 de junho de 1909, no distrito de Serranos, então pertencente ao município de Aiuruoca, Minas Gerais, onde foi sepultado no adro da igreja matriz local, sob um túmulo raso. Na época de seu óbito, era casado com Ambrosina Silva da Matta.
Carreira e obra musical Embora muitos o descrevam como autodidata ou alguém que "aprendeu sozinho", João da Matta estudou formalmente com Martiniano Ribeiro Bastos (um dos pilares da música sacra em São João del-Rei) e atuou como músico nas duas principais corporações musicais locais: a Orquestra Lira Sanjoanense e a Orquestra Ribeiro Bastos. A sua atuação não se limitava a um instrumento; era afinador de pianos e dominava tanto instrumentos de sopro quanto de corda.
Produção musical Sua obra é extensa, variada e, infelizmente, ainda não totalmente catalogada. No Acervo Musical da Lira Sanjoanense, por exemplo, foram identificadas pelo menos 35 partituras sacras de sua autoria. Sua produção compõe-se tanto de música sacra quanto profana, incluindo missas, hinos, motetos e marchas.
Marchas Fúnebres: Notabilizou-se por esse gênero, sendo autor da conhecida "Marcha Fúnebre" em fá menor. Música de Circunstância: Compôs obras ligadas a eventos históricos, como um Hino da Liberdade (por ocasião da Abolição da Escravatura) e um Hino Republicano (enviado ao Ministério do Interior na esteira da Proclamação da República). Escrita Criptográfica: Uma de suas características mais curiosas era o hábito de escrever partituras com alterações propositais nas notas, tornando a leitura confusa. Acredita-se que essa técnica visava evitar que suas obras fossem facilmente copiadas por outros músicos ou corporações rivais.
Legado e homenagens A figura de João da Matta transita entre a história factual e o folclore regional, sendo lembrado como um gênio criativo e uma personalidade insubmissa. Na cidade de São João del-Rei, a antiga Rua Progresso, localizada no Bairro Bonfim, foi renomeada Rua João da Mata, em honra ao ilustre compositor. A via se tornou um logradouro de referência na cidade, perpetuando a memória do artista que ali viveu e atuou. Suas composições permanecem sendo executadas e redescobertas por grupos de música antiga, e seu nome é hoje consenso entre os estudiosos da música mineira como um dos mais publicados e executados compositores são-joanenses do período romântico.
Referências