Miguel Barros, conhecido como Barros, o Mulato (Pelotas, 24 de agosto de 1913 – Mogi das Cruzes, 14 de fevereiro de 2011), foi um pintor, caricaturista, escritor e ativista do movimento negro brasileiro. Ao longo de sua trajetória como artista, realizou diversas exposições, individuais e coletivas. Como militante negro sul-rio-grandense, teve participação ativa na criação da Frente Negra Pelotense e, mais tarde, da Frente Negra Pernambucana. Seu desempenho o consagrou como um dos principais nomes na luta pela ascensão social da população negra no Brasil do século XX.

Trajetória Artística e Política Miguel Barros, conhecido como “o Mulato”, nasceu em 24 de agosto de 1913 na cidade de Pelotas, localizada na região sul do estado do Rio Grande do Sul. Homem negro, integrante da classe média negra pelotense, filho de Mercedes e João Moreira Barros, proprietário da Fábrica de Carimbos Sem Rival. O pintor começou a demonstrar interesse pelo desenho e arte em geral já na escola. Sua trajetória artística é notável, tendo estudado ainda na adolescência com o reverenciado pintor João Fahrion, na Escola de Belas Artes, em Pelotas. Grande parte de sua produção artística concentrou-se em paisagens e retratos, embora também tenha se dedicado à criação de caricaturas. O artista realizou sua primeira exposição em 1932, dando início a uma trajetória que mais tarde incluiria exposições em diversas localidades do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Recife. A carreira artística de Miguel Barros é de importante menção devido à sua amplitude. Entre 1930 e 1960, o artista passou por quase todo o território nacional expondo suas obras. Internacionalmente, expôs nos Estados Unidos e em países da América Latina, bem como na Argentina, expondo em Buenos Aires. Ainda no Brasil, em meio a capital paulista da década de 1940, o pintor chegou a compartilhar espaço com o Clube dos Artistas e Amigos da Arte, ou “Clubinho” como era chamado, que teve como primeira presidente a pintora Tarsila do Amaral. Na ocasião, Barros dirigia a Galeria Itapetininga, e era proprietário da Livraria Roxy, quando passou a dividir custos do espaço com os sócios do Clubinho. Desta forma, Barros pode ser considerado “uma das raras figuras negras a frequentar a elite intelectual paulista”. Barros não viveu toda a sua vida no Rio Grande do Sul e, ainda que envolvido com o movimento negro, não deixou de realizar exposições e criar obras artísticas. Suas telas, como A Morte de Zumbi e República dos Palmares, revelam seu compromisso com a discussão sobre a experiência negra no Brasil. Em paralelo à sua jornada nas artes, Miguel Barros, consciente da sua condição enquanto homem negro em uma sociedade marcada pelo racismo e pelo apagamento da contribuição social e cultural dos afro-brasileiros, engajou-se ativamente na militância em defesa de melhores condições sociais para a população negra. Em 1933, ao lado de outros jovens, fundou a Frente Negra Pelotense, entidade cujo principal objetivo era promover a alfabetização, a educação e o fortalecimento do senso de pertencimento da comunidade negra. Aproximando-se ainda mais da luta social negra, Miguel Barros passou a integrar o jornal A Alvorada, um dos principais periódicos negros de Pelotas. Publicado semanalmente, ainda que com algumas interrupções, entre 1907 e meados da década de 1960, o jornal tinha como propósito denunciar o racismo e promover ideias contrárias à discriminação racial. Na década de 1930, chegou a ser o semanário de maior circulação no Rio Grande do Sul. Barros atuou como redator por um breve período em 1934, ano em que teve contato com o pintor Leopoldo Gotuzzo e com Rodolfo Xavier, um dos fundadores e principais colaboradores do periódico. Ainda em 1934, Barros representou a Frente Negra Pelotense no I Congresso Afro-Brasileiro, realizado na cidade do Recife, em Pernambuco. O artista Miguel Barros foi um dos fundadores da Frente Negra Pelotense, organização que, embora tenha tido vida breve (1933 - 1935) devido às perseguições e proibições impostas pelo Estado Novo, protagonizou debates cruciais sobre a questão racial no Rio Grande do Sul. Essa atuação influenciou diretamente a criação da Frente Negra Pernambucana, da qual Barros também fez parte. Naquele período, o movimento negro ganhava fôlego em diversas regiões do país. A Frente Negra Brasileira (FNB), com origem em São Paulo, destacava-se por defender a educação como instrumento de emancipação da população negra e convocava outras entidades a se engajarem nesse objetivo. Assim, como aponta Domingues, é possível afirmar que, além de a FNB ter inspirado a criação de outras frentes pelo Brasil, uma ampla rede de conexões entre militantes e organizações negras também foi fundamental para o surgimento dessas diversas iniciativas.

Participação de Barros no 1 Congresso Afro-Brasileiro O I Congresso Afro-brasileiro (CAB) aconteceu no Recife, capital pernambucana, entre os dias 11 e 16 de novembro de 1934. Na ocasião, reuniram-se no Teatro Santa Isabel dezenas de intelectuais, escritores, médicos, pesquisadores de diversas áreas e representantes do movimento negro, sob a proposta de discutir e circular suas pesquisas sobre a História e o contexto social do negro no Brasil. Entre eles, havia nomes como Jorge Amado, Cícero Dias, Edison Carneiro, Ulysses Pernambucano, Di Cavalcante, Arthur Ramos, Roquette Pinto e José Lins do Rego. O Congresso foi organizado pelo escritor Gilberto Freyre, contando com forte apoio do poeta e militante do movimento social negro Solano Trindade. De acordo com Arlison dos Santos, no I CAB houve uma predominância da discussão voltada para os aspectos culturais das populações afrodescendentes, envolvendo questões como aculturação e culturalismo. Como principal organizador do evento, os livros de Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala e Sobrados e Mocambos, entraram nas mesas de debate. Ademais, as apresentações de trabalho variaram entre escravidão, pós-abolição, história e cultura africanas e afro-brasileiras na formação do estado e sociedade brasileiros e mestiçagem. Na ocasião do Congresso, Miguel Barros, representante da Frente Negra Pelotense, discursou e apresentou o Estatuto da Frente, além de expor suas obras artísticas no salão do Teatro, ao longo do evento. Para além de estudiosos e ‘letrados’, segundo Skolaude, tem-se registros da presença de agentes culturais importantes do Recife no 1o CAB, como a rainha de maracatu Albertina Fleury, ialorixás e babalorixás, como Pai Anselmo, Pai Oscar, Pai Rozendo e Pai Adão, este último tendo participado apenas da organização. Já a participação de Barros, o Mulato, foi marcada pela convocação feita por ele aos intelectuais negros pernambucanos para a construção de uma Frente Negra Pernambucana, mais uma entidade regional voltada para a defesa da instrução à população negra e o combate ao racismo. Em sua fala, o artista abordou os ideais da Frente Pelotense, todos norteados pelo lema da união, cultura e igualdade. Ao abordar a subalternização da população afro-brasileira e a segregação racial no Rio Grande do Sul, ele questiona diretamente a persistente negação do racismo no Brasil, trazendo à tona reflexões importantes sobre as desigualdades raciais no país. Assim, aponta para a necessidade e para a importância da organização coletiva, a fim de suplantar o racismo e colocar os negros desta época, bem como seus descendentes, “nas esferas cultas contribuindo pelo futuro do Brasil”. Aqui, é possível enxergar o cerne do que pautaria também a entidade congênere pernambucana: a defesa pela união e instrução da população negra do Brasil, a fim de destruir o preconceito racial e elevar esses grupos sociais a todas as esferas da sociedade, educação e trabalho. É nesse contexto que a Frente Negra Pelotense, fundada em 1933, bem como a Frente Pernambucana, mais tarde, em 1936, viria a defender a instrução e a educação; incentivar a campanha pró-alfabetização; realizar palestras e conferências em prol do “elevamento da raça negra” e pleitear o acesso aos espaços educacionais, recreativos e profissionais, conforme estatuto da entidade. Essa ideia estava alinhada ao interesse de tirar o estigma social de subalternidade e inferioridade cultural, imposto sob os negros. Assim, seria através da organização coletiva desses indivíduos, da educação e da ampla discussão e estudos sobre a história e cultura afro-brasileira que esse estigma seria vencido.

Exposições documentadas Entre as exposições registradas estão:

1932 – Exposição individual no Studium Inghes (Pelotas); 1934 – Exposição no Gabinete Português de Leitura, Recife, com obras como A Morte de Zumbi e República dos Palmares; 1937 – Exposição no Assírio do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Também realizou mostras em João Pessoa, Natal, Maceió, Belém, Manaus, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Participou do Salão Paulista de Belas Artes, recebendo Menção Honrosa (1943), Medalha de Bronze (1976) e Pequena Medalha de Prata (1980).

Obras conhecidas Entre as obras mencionadas em pesquisas e reportagens estão:

A Morte de Zumbi; República dos Palmares; Na Taberna; A Mulata. Segundo o Geledés, sua produção incluiu também retratos, paisagens, marinhas e gravuras com temática social.

Crítica contemporânea Registros de jornais das décadas de 1930 e 1940 destacaram a recepção positiva de suas exposições, mencionando o uso expressivo da cor e a qualidade técnica de suas composições. A pesquisa acadêmica publicada em 2020 apontou inconsistências em registros historiográficos posteriores, incluindo erros em dicionários de arte sobre sua data de nascimento e trajetória.

Publicações Teoria sem número (1963), livro de reflexões críticas sobre arte e estética.

Legado Estudos recentes vêm resgatando sua trajetória artística e política, analisando tanto sua circulação nacional nas décadas de 1930 a 1980 quanto os mecanismos de invisibilização posteriores.

Referências