A construção de uma política industrial de longo prazo está entre as propostas apresentadas aos pré-candidatos à Presidência da República para orientar a agenda econômica dos próximos anos. A ideia é transformar a política industrial em uma política de Estado, com continuidade entre diferentes governos e foco no aumento da produtividade, na inovação, na transformação digital, na sustentabilidade e no fortalecimento de cadeias produtivas estratégicas.A proposta faz parte do documento “Construindo o Brasil 2050 – A indústria na agenda dos presidenciáveis”, elaborado a partir de contribuições de representantes do setor produtivo e especialistas. O material defende que uma estratégia nacional para a indústria tenha governança consolidada, metas de longo prazo e mecanismos capazes de reduzir a descontinuidade de programas provocada pelas mudanças de governo.Segundo dados reunidos no documento, a economia brasileira cresceu, em média, 2,3% ao ano entre 2000 e 2024. No mesmo período, a produtividade total dos fatores da indústria de transformação caiu 10,2%. A participação da indústria de transformação no PIB, por sua vez, passou de 35,9% em 1985 para 13,7% em 2025.Para Fabrício Silveira, superintendente de Política Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), um dos principais desafios é criar mecanismos que garantam a continuidade da política industrial independentemente dos ciclos políticos. Em artigo publicado em junho, ele defendeu que a agenda tenha respaldo institucional e coordenação no mais alto nível decisório.A proposta prevê a institucionalização da política industrial por meio de legislação, com definição de diretrizes e estrutura de governança. Entre as medidas apresentadas está o avanço do Projeto de Lei nº 4.133/2023, que prevê que cada governo apresente, ao final do primeiro ano de mandato, uma política industrial, tecnológica e de comércio exterior.Outra frente seria a coordenação entre diferentes programas públicos relacionados ao desenvolvimento produtivo. A avaliação apresentada no documento é que iniciativas voltadas à transformação ecológica, inovação, inteligência artificial e desenvolvimento industrial podem alcançar resultados maiores quando articuladas dentro de uma estratégia comum de longo prazo.A proposta também defende o fortalecimento do diálogo institucional entre governo e setor privado, além do monitoramento contínuo dos resultados das políticas industriais. A intenção é permitir ajustes ao longo do tempo e aumentar a efetividade dos recursos destinados ao desenvolvimento produtivo.A agenda apresentada aos presidenciáveis coloca a transformação tecnológica e ambiental entre os eixos da política industrial. O objetivo é combinar o aumento da capacidade produtiva brasileira com investimentos em inovação, digitalização e redução das emissões de carbono.Nesse cenário, a política industrial seria orientada por missões e concentraria esforços em cadeias produtivas consideradas estratégicas. A proposta prevê critérios transparentes e periódicos para definir quais setores e elos das cadeias devem receber prioridade, considerando fatores como capacidade tecnológica, geração de valor, resiliência produtiva e inserção nas cadeias globais.A estratégia também considera que a indústria contemporânea está cada vez mais integrada a serviços de alto valor agregado, como software, engenharia, design, pesquisa e desenvolvimento, conectividade e monitoramento remoto. Dessa forma, o fortalecimento da indústria passa também pela ampliação da capacidade tecnológica e pela integração entre empresas de diferentes portes.Outra proposta é ampliar o uso das compras públicas como instrumento de desenvolvimento industrial. A ideia é utilizar o poder de compra do Estado para estimular inovação, fortalecer fornecedores nacionais e criar demanda para tecnologias consideradas estratégicas.O documento aponta que a participação das compras públicas no PIB brasileiro caiu de 13,1% em 2014 para 9,4% em 2019. Para os formuladores da proposta, o Estado poderia atuar como um “cliente âncora”, agregando demandas e criando escala para produtos e tecnologias desenvolvidos no país.A agenda também prevê o aprimoramento de instrumentos de financiamento, com maior disponibilidade de linhas de longo prazo e condições capazes de estimular investimentos privados. A intenção é reduzir incertezas e criar um ambiente mais previsível para empresas que planejam ampliar capacidade produtiva, investir em tecnologia ou realizar projetos de transição ambiental.A proposta parte da avaliação de que o desenvolvimento industrial depende de políticas que ultrapassem os ciclos eleitorais. O objetivo é estabelecer uma estratégia capaz de combinar competitividade, inovação, produtividade e sustentabilidade, mantendo instrumentos de política pública mesmo diante de mudanças na administração federal.Em artigo publicado no Poder360, Fabrício Silveira afirma que a transformação da política industrial em política de Estado poderia dar maior previsibilidade aos investimentos públicos e privados e reduzir os efeitos da alternância de prioridades entre governos.Para a agenda apresentada aos presidenciáveis, o desafio dos próximos anos é fazer com que a indústria brasileira avance simultaneamente em produtividade, tecnologia e sustentabilidade. A proposta coloca a continuidade das políticas públicas, o fortalecimento das cadeias produtivas e a capacidade de inovação como elementos centrais de uma estratégia de desenvolvimento que pretende alcançar resultados até 2050.









